Desde quando você "trabalha o Horror" no Boca do Inferno?
MILICI: Há mais de oito anos
venho nessa luta de divulgação do gênero através do Boca do Inferno. O
site tem 10 anos de existência, mas antes disso eu já trabalhava nele,
divulgando meu TCC sobre o "Horror Gótico nas Literaturas Inglesa e
Norte-Americana".
Como é levar profissionalmente o cinema fantástico num país onde o gênero horror é visto como má influência?
MILICI: É bastante complicado.
Ainda existe preconceito contra o gênero e contra aqueles que trabalham
nele. Além disso, os próprios fãs do estilo não são unidos, não costumam
participar de eventos e festivais, não divulgam os lançamentos... Ainda
assim, o desafio e a possibilidade de facilitar o acesso daqueles que
não possuem muito conhecimento sobre terror tornam todo o processo muito
divertido.
Antes de se associar ao site, qual era a sua ocupação no circuito alternativo?
MILICI: Antes de me associar ao
site, eu fazia faculdade e tinha uma banda de rock. No circuito
alternativo eu fazia produções caseiras de terror, envolvendo serial
killers e seitas malignas, e promovia sessões de histórias de terror e
exibições de filmes toscos.
De acordo com a lenda, o "Boca do Inferno" é
a página sobre cinema de horror mais acessada da América Latina... você
desmente ou confirma esta questão?
MILICI: Não é lenda, é um fato.
Temos uma média atual de quase 30.000 visitas diárias, sendo que muitas
delas não são brasileiras. Inclusive, o Brasil nem é o país que mais
visita o site, é apenas o terceiro. Não há grandes sites do gênero na
América Latina. Por exemplo, na Argentina, há boas revistas sobre o
gênero, lojas especializadas, mas páginas na internet não são o forte
deles.
Quer ver ume exemplo? Visite o melhor site argentino do universo fantástico: AXXON.
O que vocês tem a dizer sobre a nova geração do horror no cinema ou dos quadrinhos?
MILICI: Nos quadrinhos, eu posso
dizer que é promissora. Com a revista Boca do Inferno.com tive a
possibilidade de conhecer alguns artistas voltados para o terror e
fiquei bastante animado com o talento deles. Há boas histórias a serem
contadas, só falta espaço. Já no cinema há um certo desânimo quando se
chega à conclusão de que há pouco talento criativos no estilo: Eli Roth,
Maurice Devereaux, Franklin Guerrero Jr.? Ainda fico com a velha
guarda, o grande mestre: José Mojica Marins!
Todo o material exposto é enviado pelos colaboradores ou o site possue um arquivo próprio sobre o cinema de horror?
MILICI: Os colaboradores enviam
críticas, artigos, contos, imagens, entre outras coisas. Quando o
material é exposto no site, ele passa a fazer do arquivo do Boca do
Inferno. Então, eu diria que o site existe graças aos colaboradores, e
os colaboradores conseguem destaque graças ao Boca do Inferno.
Quanto a revista "Boca do Inferno.com". Qual é a sua expectativa de produção e como funciona o controle do que é publicado?
MILICI: Desde criança, eu sempre
quis trabalhar com histórias em quadrinhos. Cheguei a fazer três anos
de curso de desenho para um dia poder publicar meu próprio material.
Então, quando surgiu a possibilidade de desenvolver uma revista Boca do
Inferno fiquei bastante feliz. Cada novo número que sai do forno é uma
grande satisfação! O controle do que é publicado fica a cargo do dono da
editora que sempre escolhe o que acha mais interessante para os
leitores de suas publicações. Particularmente, estou plenamente
satisfeito com o que saiu até o momento, e acredito que os leitores do
site também estão.
De uns dois anos pra cá o gênero HORROR
pareceu ganhar um espaço maior. Novos eventos, grupos e páginas são
lançados e pequenas editoras começam a abrir as portas. Como você
enxerga esta aproximação?
MILICI: Eu acho ótimo esse
crescimento do gênero, mas sei que poucos se manterão ativos. Para
trabalhar com o horror no Brasil, é preciso dedicação, persistência,
muita força de vontade e idealismo. Já tivemos outras grandes explosões
do gênero, por exemplo, em 1996, quando o "Cine Trash" colocou o horror
na moda, lançando produtos, muitos filmes em VHS, revistas em
quadrinhos, álbum de figurinhas, lançamentos constantes nos cinemas e
sites voltados para o estilo. Pois, quase nada daquela época durou
(apesar de aumentar o número de fãs). Muita crítica e falta de
profissionalismo voltaram a enterrar o terror. Mas, como um bom
morto-vivo, ele sempre retorna...
Agora uma pergunta um tanto pessoal...Como é
ser um "Mestre Infernauta" na sua respectiva profissão? Você conversa
sobre seus gôstos no ambiente de trabalho?
MILICI: Como professor, eu
utilizo muito o terror nas minhas aulas. No ano passado, fiz um concurso
de redações de terror com meus alunos do supletivo; e levei os
adolescentes para assistirem "A Hora do Espanto", desenvolvendo resenhas
a respeito. Há o preconceito, principalmente daqueles alunos e pais
extremamente religiosos, mas, em suma, são experiências gratificantes.
Eles me apelidaram de "Gore Lord". Gostei!
Uma pergunta crucial. Você já assistiu todos os filmes postados no site Boca do Inferno?
MILICI: Não tem como assistir a
todos os filmes do catálogo do site. São muitas produções feitas todo
ano, além dos clássicos do passado, e preciso dividir meu tempo com a
preparação de aulas, com a atualização do site, minha banda, mas,
principalmente, com a minha esposa. Ainda assim, consigo ver uma média
de 200 filmes anuais, sem deixar de rever o que há de melhor do estilo.
Ainda sobre filmes.. .o que você acha das
produções independentes de horror que voltaram a surgir e quais as
críticas sobre as mesmas?
MILICI: Antes eram apenas
"produções caseiras de terror", um material mais engraçado do que
propriamente assustador, mas, os avanços tecnológicos e o acesso aos
recursos fizeram "qualquer filme de fundo de quintal" utilizar
computadores e efeitos especiais convincentes. Então, nem podemos chamar
mais de "produções caseiras", já que o trabalho é semi-profissional e
muito bem feito. Estou bastante animado e acredito que o futuro é ainda
mais promissor.
Você tem algum projeto para lançar novos trabalhos voltados ao Terror?
MILICI: Sempre. Ainda sonho com a
minha própria "Fangoria", com meu programa em vídeo de internet, e
quero publicar os artigos e críticas do site em formato de livro,
divididos por subgêneros. Idéias não faltam, tempo é fácil de ajeitar, o
problema é arrumar patrocínio para que as intenções se transformem em
realizações. Ainda chego lá.
Muito obrigado pelo tempo dispensado à esta
entrevista. Espero que a aliança entre o Suburbia Horror Show e o Boca
do Inferno reforce-se cada vez mais nesta árdua trilha que é o
underground.
MILICI: Agradeço pela
oportunidade de falar sobre o site e sobre o meu gênero favorito. Também
espero que consigamos estreitar as alianças e que grandes projetos
surjam em parceria.
Vamos continuar nessa longa jornada rumo ao inferno...


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